Dia 5, assisti ao 1º debate (Alegre/Cavaco) e ao rescaldo medático subsequente. Também estive atento ao 2º debate (Soares/Jerónimo) e às inevitáveis apreciações dos comentadores. O que posso dizer de tudo isto?
O primeiro debate (Alegre/Cavaco) esteve muito mais focalizado no presente e no futuro, e abordou temas que têm a ver com a função presidencial. O debate de ontem (Soares/Jerónimo) desviou-se bastante dos objectivos de um verdadeiro debate entre candidatos à Presidência da República, ficando quase sempre pelas discussões das políticas do governo e pelo enumerar de um relacionamento amor/ódio entre Soares e os comunistas. Neste sentido, foi um debate bem ao gosto do candidato oficial do PS.
Contudo, a julgar pela avaliação dos comentadores fica-se com a ideia de que o primeiro debate foi "chocho" e de que o segundo foi "interessante". Ora, tanto num como no outro imperou a escassez de confronto de ideias e posições, mas, apesar disso, o primeiro foi bastante mais esclarecedor sobre aquilo que realmente diferencia os candidatos. Por exemplo, nunca no segundo debate se ouviu algo do género: "Como Presidente eu faria assim...". O melhor que se ouviu foi algo como isto: "Eu quando era Presidente fiz isto...".
É muito pouco! E é precisamente aqui que a minha apreciação se afasta radicalmente da dos comentadores das TV's. Acho até que estão a aplicar critérios de exigência variável consoante os alvos de avaliação. De Jerónimo não se espera nada por aí além, mas apenas que desbobine o que já se sabe que irá desbobinar. Se cumprir este papel, já recebe nota positiva. De Mário Soares, os comentadores esperam ouvir uma ou outra frase nova para poderem dizer "ele piscou um olho à esquerda e o outro à direita". Em todo o caso, perante Mário Soares os comentadores ficam deslumbrados pelo estilo, como os apreciadores de «revistas cores de rosa» em relação às celebridades. Perante Cavaco, os mesmo comentadores já só esperam ouvir um discurso institucional desbobinado em versão CDRom, apenas simetricamente inverso ao discurso do Jerónimo. O problema é Manuel Alegre: neste caso, os comentadores não sabem bem o que esperar. Se tem uma postura de homem idóneo e responsável, que não diaboliza o adversário, então é "mole"; se afirma inequivocamente o que o separa do adversário, não está a dizer nada de especial, porque isso até já se sabia...
Enfim, tão ou mais interessantes que os debates entre candidados estão a ser os comentário de rescaldo, em que temos acesso a algumas apreciações aparentemente bem ajuizadas mas que, de facto, não se afastam muito da noção de delírio.
O Miguel diz que sou filho de Aníbal... Aníbal insiste que sou filho do António...
E só repararam em mim quando eu já era grande. Há até quem atribua a paternidade da minha monstra-pessoa a um tipo chamado Afonso Henriques... Sabem quem é ele?
O Zé e a Manela ainda me alimentaram às escondidas. O Bagão deixou-me engordar. O actual inquilino do palácio não me dá sossego, quer mesmo matar-me à fome.
Se tiver que morrer, gostaria pelo mesmo de saber quem é realmente o meu pai.

DUAS PESSOAS SÉRIAS COM BASE NA MESMA INFORMAÇÃO TÊM QUE CONCORDAR!
Aplicando esta máxima ao debate televisivo de hoje, entre Manuel Alegre e Cavaco Silva, posso garantir que UM MILHÃO DE PESSOAS SÉRIAS (já descontando do total de telespectadores umas hipotéticas duzentas mil pessoas que não são sérias, porque fogem ao fisco ou porque sofre de uma entre muitas debilidades de carácter), SÃO OBRIGADAS - por definição - A CONCORDAR COMIGO, porque TAMBÉM SOU SÉRIO:
1) Este modelo de debates mais parece um par de entrevistas paralelas.
2) Cavaco Silva não é candidato da direita e não tem culpa nenhuma que a direita veja nele o seu candidato.
3) O Palácio de Belém pode transformar-se numa força de desbloqueio caso os portugueses não bloqueiam, pelo voto, o acesso de Cavaco ao cargo de presidente.
4) Manuel Alegre foi coerente e frontal em relação a uma série de assuntos: a visão estreita que Cavaco propõe ao país, circunscrita às finanças; a aposta dos governos de Cavaco num modelo que hipetecou o desenvolvimento do país; o perfil dúbio e inconsequente do Procurador Geral da República; o erro do envio de GNR's para o Iraque...
Portanto, já que concordaram com tudo o que escrevi, também deverão concordar com o seguinte: Se Cavaco Silva continuar a enunciar lugares comuns nos próximos debates arrisca-se a perder votos; mas se sair dos clichés habituais arrisca-se a perder ainda mais votos!...
Aveiro
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